Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Vazante

Vazante

Enquanto desces aprecia a paisagem

29
Jul21

 

 

My old shoes | Dallmeyer 3b clear glass poorboy collodion KC… | Flickr

 

Os meus sapatos são como outros pelo mundo. Há pessoas a quem os meus sapatos assentam bem. Caminham sem percalço neles um dia inteiro. Mas ignoram de todo, quantas vezes pisei o chão de pés nus. Como foi, desidratados, curar-lhe as gretas em sangue no calor. Encher as feridas, no inverno rigoroso, de gorduroso unguento.
Estarão cientes que pés pequenos também cobrem grandes distâncias. Atingem cumes de montanha. E que às vezes não importa o calçado adequado. Sim, a determinação e o foco de quem estabeleceu que o esforço para chegar ao topo, será compensado ao descer.
Uns focam-se em permanecer no topo após arduamente alcançado. O topo é o prémio final. Descer, a derrota. O fracasso!
Para outros o topo é a pausa dos altos e baixos da vida. Das quedas e dos reergueres. O restabelecer do fôlego. Mas  a descida, sim. É a recompensa! O regresso a casa. O apreciar da paisagem.




 

 

Quando a normalidade é indiferença

29
Jul21

 

 

ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤpuzzles of a dreamer: Junho 2011

 

Não me importa a reabertura da sociedade. Importa-me o fechar dos olhos às vidas ceifadas diariamente. 

 

 

 

Dentro de mim um poeta

28
Jul21

 

 

6,761 Old Poet Stock Photos, Pictures & Royalty-Free Images - iStock

 

Há no meu peito cansado
Sentado num canto isolado
Um poeta destroçado a tentar em vão escrever
Um poema que tem em mente
Que já esquematizou e que sente
Mas apaga e volta a apagar
O que se atreve a grafar
Convencido já não ser capaz
De traduzir por palavras aquilo que lhe vai, na alma...
O que lhe mora na mente.

 

Dentro de mim um poeta.
Empunha uma caneta
Na mão que lhe treme já exausta
De escrever e de atirar depois,
de a amachucar...
Mais uma folha para o chão.
Acabando por ceder à vontade chorar
Frustrado por não achar
Como dar corpo ao poema que grita para sair
Do seu cérebro a latejar.

Encosta a cabeça ao braço
Fecha os olhos
Pensa na vida. 
Adormece de seguida
Sem conseguir expressar uma letra, palavra ou rima


Sonha que está acabado.
O seu dom também finito
E repara quando acorda, sem saber como explicar
Que no corpo da folha jaz, o poema esquematizado  
Pela sua mão manuscrito

 

 

Espíritos do Bosque

28
Jul21

 

Forest Bathing Barefoot Photos - Free & Royalty-Free Stock Photos from  Dreamstime

 

Fez uma fogueira na mata e sentou-se-lhe na frente. Fechou os olhos e sonhou, elevando uma prece aos espíritos do bosque. Naquele dia necessitava cheirar o fumo dos galhos orvalhados. Ouvir a madeira crepitar rodeada de gigantes vetustos, também em silêncio. 
Repentinamente um pássaro piou. Pousou num bater de asas, pujante num galho próximo. Soprou uma brisa branda e doce rente ao chão qual suspiro sobrenatural, que fez as folhas restolharem e elevarem-se dançantes, como se orientadas por maestro invisível.
Um milhafre que descrevia círculos sobre as copas das árvores, chalreou poderoso. Com as pernas cruzadas e as palmas das mãos voltadas para o céu, descansando-lhe sobre os joelhos, expeliu para longe a pressão no peito. O latejar das frontes. Sentiu aquela sombra opressora desvanecer-se, quando um inesperado raio de sol incidiu em cheio, sobre si.
Inspirou, profundamente! Curvou a cabeça, uniu as mãos e agradeceu.  

 

 

Quando a dor amainar

27
Jul21

 

 

The Shape of Healing: The Power of Pottery in Mental Health Treatment –  Bridges to Recovery

 

De quem passa por acontecimentos devastadores não se espera muito. Esperar-se nada o mais acertado. Garantidamente é deixar fluir. Haverá os que estremecem dois dias e ao terceiro estão prontos para enfrentar o mundo. E os que somem, nitidamente. Em tamanho, força e presença! Parecem decrescer na própria altura! Vergados sob o desgosto. Isolando-se num ascetismo rigoroso, sem prazo. Evadem-se. Quem lhes dera, de si. 
Tempo! Dai-lhe tempo. Espaço. Silêncio e solidão, que os ampara e ouve sem expressarem palavra. 
Papel! Deem-lhes papel, um lápis. Caneta, esferográfica. Pena, ou pau, para rasgarem a areia. Desvirginarem o chão, à volta.
Deixem-nos encher as paredes do casulo para onde se retiraram de coisas que só eles entendem e não querem partilhar. Pelo menos em consciência.
Deem-lhes uma máquina! Como muitos acabam por desejar ser, isenta de coração e de cérebro. Onde se martele dia e noite inteiros, qual saco de boxe, até se cair para o lado, exausto!  
Um escopro! Para talharem a imagem da mágoa e da saudade fidedignas. Ou, então, deem-lhe novo rosto e formas. Deixem-nos! Por favor. Estar.
Um dia caem neles. Quando a dor amainar.

 

Longe, longe, longe

26
Jul21

 

 

 

Relação pais e filhos - Diário do Rio Doce

 

 

Acordava-vos para vos mimar
Mas nesse vosso descansar
Não estais realmente, a dormir
Resigno-me a desejar
Que como o que não entendemos
E também o que não vemos, mas está à nossa volta
Ouçam e possam sentir.

 

Quantas folhas tem uma árvore?
Quantas serão as ondulações de cada uma, no ramo?   
Sopros dirige-lhes o vento
Para as ver a balançar?


Quantas vezes nelas pousaram?
E dali para mim, olharam.
Velando silenciosamente
O meu inquieto descansar?


Quantas vezes, me beijaram.
Na fronte,
enquanto dormia?
Sem me aperceber que ali estavam
Mimando-me como os pais fazem.
Sem nos perturbarem o sono.
Da maneira que podiam?

 

Acordava-vos para vos mimar
Só para ver-vos sorrir.
Inteirar-me se estão bem?
Pedindo para me desculparem
Mesmo sendo o que são agora
Seres tão belos como aurora
Que não precisam de dormir.

 

Quantas vezes mansamente.
Entrais sem pré-aviso
No meu cérebro distraído?
E plantam nele a ideia
Que basta pegar no telefone
E aguardar um momento
Para que falem comigo?

 

Acordava-vos para vos mimar
Mas nesse vosso descansar
Não estais realmente,
a dormir.


Consolo-me a desejar
Que neste desterro imposto
O longe se faça perto
Oiçam e possam, sentir!

 

 

 

 

Rabiscada

26
Jul21

 

 

Rabisco | "Pessoal Particular"

 

Os rabiscos que boto aqui valem zero e estou em profundamente em paz com isso. Quando deixamos de sentir a necessidade da partilha, de aprovação dos outros e as palavras ficam-nos apáticas para o mundo sem deixarem de ser vitais para o próprio, não importam os outros. Nem o resto. Alcançámos um estado de liberdade e de tranquilidade que parecendo equívoco e tresloucado, faz todo o sentido.

 

 

Paranoia

25
Jul21

 

 

Lonely Man at Seaside stock image. Image of sorrow, back - 124627581

 

Sobe rasteira pela encosta, uma saudade louca
Encontra-o erecto, pés assentes numa rocha
O olhar perdido no desconhecido agreste
Procura como doido por ela


Tacteia o ar
Bebe a maresia
Estará viva, estará morta?
Que interessa?


Sai dali a toda a brida
Violando na descida ar e encosta
Como se cada metro representasse
Ela! 

 

Louco de dor.
A chispar ódio.
Procura desatinado
Mas só o silêncio o queima, com o seu beijo gelado.





Faúlhas

22
Jul21

 

BRASA - Definição e sinônimos de brasa no dicionário português

 

A palavra tem um tempo de vida curto. Inversamente o silêncio continuará a ouvir-se na eternidade. As palavras ditas numa correnteza apressada para frisarem a pertinência do raciocínio evaporaram-se nos meus ouvidos. As escritas em linho, organza, damasco, adornadas de pedrarias  são como fogos-fátuos diante os meus olhos. 
Mas os silêncios de alguns ainda hoje martelam o ar como cinzeis, o mármore de Carrara. Chispam e fervem como brasas.  

 

 

Solidão Acompanhada

21
Jul21

 

Solidão e solitude: Principais diferenças | Entre Olhares

 

As ideias são um emaranhado de fios numa meada que diariamente dobamos, destrinçamos nós, para terminarem no irremediável rolo organizado por cores e grossuras, a que deitamos diariamente  mão para construir ou concluir algo, no imediato.
Há ideias a pairar no ar por todo o lado, oriundas de várias cabeças. Verbalizadas por inúmeras bocas. Silenciadas nas profundezas da alma, que ocasionalmente emergem porque urge ver luz.
Há as que nascem de conversas de café, de escritório. No ginásio, ou supermercado. Mas esta surgiu insuflada como uma bola de sabão, vinda de um passado longínquo enquanto lavava caldo verde.
Acompanhaste-me meses a fio. Dias em que nos despedíamos com um até amanhã e um sorriso sereno, a que se seguiu muito à frente um beijo simples na face. Nessas caminhadas rumo a casa, as ideias borbulhavam entre ambos, ajustando-se. E, como nós, passaram a cumprimentar-se respeitosamente. Percebendo elas e eu. Tu, que não eras parvo, vir o dia de um abraço. Um beijo longo roçando os lábios. Até se transformar no de língua, arfante e pele colada. Desses em que um, já não sabe onde começa e onde termina.
Aquele rolo, antes fio e depois meada, era um todo de uma só cor. Sem princípio nem fim.
O que doeu? Foi tão-só a falta de companhia. O reaprender a caminhar só e falar comigo. Via-te pertíssimo na frente diariamente. Mas tão infinitamente longe como o passado de onde esta ideia surgiu.
De tempos, a tempos pergunto-me se ainda respiras?
Sem peias deixo a ideia de parte e prossigo na minha solidão acompanhada.